O Elevador
 
 
 
 
 
A vida, para mim, tinha sentido na vertical. Desde as mais antigas lembranças de uma infância há muito distante no tempo, onde trepava nas árvores do jardim pelo puro prazer de pular lá de cima, até hoje quando vejo a vida como uma série de altos e baixos, posso sentir a verticalidade do mundo. Na vertical crescemos, lutamos e vivemos. Quanto mais alto estamos, mais liberdade. E quanto mais baixo, menos dinheiro.
Naquele momento, encontrava-me em um ponto baixo. Estudantes quase sempre têm pouco dinheiro. Eu não era exceção. Assim, procurei emprego durante meses e encontrei uma vaga de ascensorista em um condomínio residencial de classe média alta, em um bairro nobre de São Paulo. Iria trabalhar. E na vertical, dando consistência à minha filosofia de vida. Meu local de trabalho me foi apresentado pelo síndico: um elevador social, com porta externa de madeira trabalhada, e interna azul marinho. Era largo, com um espelho enorme ao fundo, onde muitos aproveitavam para dar uma rápida olhada na aparência e ajeitar aquele fio de cabelo rebelde, ou uma peça qualquer de roupa. O tapete vermelho era um detalhe de requinte. As paredes interiores também eram revestidas em madeira trabalhada, com um curioso desenho esculpido lembrando várias pessoas sentadas ao redor de uma mesa, comemorando em uma festa. Na frente, no canto esquerdo, ficava o painel de controle e um pequeno banco almofadado que passaria a ser por tanto tempo, meu trono particular.
O elevador tornara-se por muito tempo parte de mim. Os óculos através dos quais olhava as pessoas e enxergava minúcias pouco aparentes. As características da voz de uma pessoa e seu jeito de vestir me diziam mais sobre ela do que horas de conversa. Poder, soberba, amabilidade, rebeldia, solidão ou alegria. Tudo era possível detectar. E era tão simples. Bastava saber ouvir cada palavra, cada entonação por mínima que fosse da voz e já seria possível deduzir um traço mais profundo de personalidade e caráter. Como aquelas jovens adolescentes que mais pareciam um bando de alegres gazelas pulando de uma lado para o outro e apenas querendo se divertir. Ou aquele senhor sempre precavido que puxava assunto, às vezes, mas que sempre tentava esconder, sob a insígnia do trabalho, a amante apaixonada e delirantemente sensual do conhecimento da esposa. Ou ainda o jovem e tímido rapaz que sempre chegava triste em casa, sendo incapaz de ultrapassar o abismo da solidão e arrumar uma namorada interessante. Sim, a voz muitas vezes fazia com que as pessoas se mostrassem nuas em seus sentimentos mais recônditos.
Foi assim, após um “bom dia” e “décimo segundo, por favor” que vi pela primeira vez aquela que ocupou-me os cinco sentidos por meses a fio. Anne. Na verdade, Julyanne. Ela possuía um brilho. Uma chama de Sedução ao qual o meu olhar não conseguia nunca escapar. Cabelos castanho-escuros quase sempre estavam a cascatear pelos ombros, olhos azul-turquesa relatavam um ar de mistério, os lábios revelando uma boca perfeita. Levemente morena, era um rosto de modelo e um corpo capaz de provocar inveja a qualquer musa de verão. Sempre quando entrava eu lhe lançava um leve flerte, esperando sua reação, e ela, consciente de seu fascínio, apenas algumas vezes correspondia. Nestes instantes, eu tentava em vão apreender por inteiro as nuances daquela mulher. Mas o tempo nunca era o suficiente. Até que percebi, dezenas de vezes depois de constatar esta impossibilidade, que ela era aquele tipo de mulher que exige de um homem tempo, se revela aos poucos, e nem sempre por completo.
Eu sempre persisti. Buscava-lhe um sorriso, um olhar, gesto ou palavra. Qualquer forma de aproximação. Aos poucos, parei de contar o tempo como dias úteis e feriados, mas como ela se vestia. Jeans com lycra lhe acentuava o já exuberante quadril, junto a um top de tirar o fôlego em momentos de descontração em noites de semana; Calças sociais claras e camisas femininas sóbrias para o trabalho nos horários comerciais, em dias úteis. Vestidos envolventes em fins de semana, saias às vezes semitransparentes, outras bem curtas, sempre que possíveis, e que deixavam-me sempre o gostinho de quero mais.
O breve deslizar do elevador para cima ou para baixo. E perdê-la novamente, até horas mais tarde. O espaço de tempo em que meu olhar a mantinha cativa, fascinado, era tão curto... tão rápido.. E mais rápido ainda foi como passei a desejá-la, noite e dia. Eu a queria, a desejava incansávelmente . Mas ali eu era apenas um ascensorista. E ela, sabe-se lá filha de qual autoridade ou empresário. Um caso impossível.
Mas houve um Sábado. Um sábado, onde eu já me cansara de minhas jornadas retilíneas e verticais. A noite caíra rápido e já contavam quase onze horas. Ninguém nos corredores. Um deserto total. A única vontade era logo ir embora, mas precisava ainda cumprir o horário de trabalho até às zero horas. Em geral, o horóscopo dizia que sábado era meu dia de sorte. Mas, aquele fora um dia exaustivo.
O corredor estivera vazio até então. Qual não foi a minha surpresa ao avistar uma silhueta feminina subindo os três degraus no início do corredor, ao longe, que dava para a entrada do prédio. Ela entrou, e caminhara em minha direção. Os quadris dançavam sensualmente aos meus olhos. Mas a reconheci quando entrara. Era Anne. Ela entrara decididamente no elevador, olhou-me, mas não disse palavra.. Não disse o andar, mas eu já sabia. Apertei as teclas numéricas e as portas se fecharam. Ela virou-se de costas, olhando para o espelho. Vaidade, pensei. Baixei os olhos para o tapete carmesim. Àquela altura, já sentia-me exausto.
Mas meu olhar surpreendeu-se ao ver cair um prendedor de cabelo. E logo após, uma pequena bolsa de ombro. Abaixei-me para catar os objetos, mas logo deixei-os cair novamente, sentando-me, quando fitei-a. Ela olhava-se diretamente no espelho. Desabotoava os últimos botões de uma blusa de malha, antes justa em seu tórax, e de onde agora, aberta, saltavam os seios rijos, redondos, emoldurados por um corpete meia-taça em marrom degradê. A blusa, para minha completa surpresa e admiração, escorregou lentamente pelos seus braços, caindo ao chão. A visão tirara-me do torpor e do leve sono que sentia até então. Eu ouvia Vivaldi. E confesso que naquele momento, vê-la despir-se em harmonia aos acordes mágicos, transportaram-me a uma visão surreal. Meu coração, como seria de esperar, acelerou-se bruscamente. Meus olhos não conseguiam desviar-se daquela imagem glamourosa, que hipnotizara-me. E foi assim que ela seduziu-me.
Ela era fantasticamente bela. Um corpo maravilhoso enchia-me os olhos. Não consegui deixar de fitá-la por um só momento que fosse. A pele macia, era aveludada e lisa. Os dedos esguios deslizavam pelos cabelos castanhos, libertando-os suavemente, e estes agora lhe cascateavam pelos ombros nus. O elevador ia desacelerando, dando sinal de que pararia e as portas se abririam.
Sempre considerei-me homem maduro. Mas confesso que nunca havia passado por uma situação onde não tivesse o controle. Tudo deixou-me desnorteado. Sequer conseguia pensar. Ante a inebriante imagem da mulher que desejava e a adrenalina se espalhando por meu corpo, fiquei inerte. Mas tomei uma atitude instintiva.
Pressionei, tremendo, a tecla indicando o térreo, e desejei intensamente que aquela linda ninfeta não estivesse com qualquer pressa e não se ofendesse com minha ousadia. O elevador parou. As portas se abriram. E foi quando uma saia branca desabou, junto com meu queixo.
Um instante de hesitação, incredulidade, e fiz a única coisa que achara certo naquele momento: desesperadamente apertei o botão do térreo uma, duas, várias vezes, até que o sangue em meu polegar se esvaiu.. Ela não fez menção de sair. Apenas olhava-se diretamente no espelho, ora passando a mão pelos ombros, ora elevando a carícia do ventre para os seios, quando então fechava os olhos e jogava a cabeça para trás. As portas automáticas do elevador fecharam-se novamente, e este começara mais uma jornada, desta vez para baixo. E passei a desejar uma longa e demorada descida.
Os saltos altos saíram dentre o tecido branco ao chão, que havia sido uma saia. Caminharam em minha direção. Fiquei atônito. Estupefato. Ela Parou em minha frente, virando a cabeça para o lado, olhando para trás, para o espelho. Olhei-a de baixo para cima. Que maravilha! Todo meu corpo pulsava agora de desejo. Aquela cintura terminava suavemente num quadril redondo e generoso, onde uma minúscula calcinha de renda negra emoldurava-lhe a parte interna das virilhas. Aquele perfumado, macio, e sensual quadril deslocou-se lentamente para a direita, dando-me aos poucos a arrebatadora visão de um bumbum saliente que se projetava das coxas. No meio daquele delicioso traseiro, a lingerie adentrava, separando as nádegas em duas montanhas e um vale monumental. O ar em meus pulmões saíram emitindo um leve gemido, e meu corpo estremeceu-se, ao ver e sentir aquelas nádegas pousando sobre meus joelhos. Eu já me encontrava frêmito, agonizando de vontade, mas não ousara tocá-la. Ela curvou suas costas, desabotoando lentamente a fivela do sapato esquerdo, e depois, quando por fim terminou de descalçar o direito, fazendo menção de levantar-se, enlouqueci.
Abracei-lhe primeiro a cintura, colando-me a ela fortemente, o que fez com que ela se voltasse para trás, pressionando-me. Minha surpresa foi tão enorme que bati e escorreguei a cabeça nos botões numéricos do controle do elevador, gemendo de paixão, pressionando vários ao mesmo tempo. Deixei que ela se virasse de frente, agora também arfando descontroladamente e beijasse-me com toda a selvageria de que fosse capaz. Levantei-me e nossos corpos colaram-se, minhas mãos explorando a maciez de sua pele, deleitando-se no bronzeado recém adquirido. Seus dedos abriam furiosamente minha camisa, arrebentando os botões que se punham no caminho. Comecei a desabotoar minha calça no instante em que me dei conta que o elevador novamente parara e abrira suas portas. Bati com a mão aberta no controle novamente, apertando vários botões, simultâneamente. Lá fora, tudo era silêncio e quietude. Arranquei-lhe o corpete meia-taça e dois seios lançaram-se violentamente para fora, maravilhando-me. Fui tomado de emoção. “Que seios!” – pensei – “Que seios perfeitos e maravilhosos”. Redondos, firmes, cheios, com os mamilos projetando-se em minha direção. Aqueles seios que não pude deixar de acariciar, beijar, apertar e sugar como uma forma de venerá-los, postando-me em reverências a sua majestade. Ela adiantara-se e começara a baixar as calcinhas o que causou-me ainda mais ânsia e desejo. Toquei-lhe as nádegas macias, apertando-as, trazendo-a para mim. Quase desfaleci quando ela terminou de abrir meu zíper, baixando minhas calças, libertando meu sexo inflamado e juntara as duas mãos suaves e quentes em meu bumbum, puxando-me para dentro de si. Suávamos, arquejávamos, mal conseguíamos respirar.
O elevador, enlouquecido em nossa paixão, agora parava em quase todos os andares, abrindo e fechando as portas e de novo seguindo, subindo ou descendo, desgovernado como nós, em nossa viagem enlouquecida ao prazer. Ela arranhava-me, gritava, pedia mais, mais forte e mais rápido. E eu, obediente, concentrava toda a energia que me restava e lhe dava o máximo, pressionando, arfando, apertando-a e acelerando ora num vai-e-vem desesperado, ora girando meu pênis dentro dela, impensadamente, numa urgência incontrolável. Ela, incansável, currava-me, rebolando os quadris, cravando as unhas em meu peito, os dentes em meu ombro, grunhindo desvairadamente, desejando, querendo, abrindo-se inteira para mim. Sentia as contrações de sua vagina apertando-me, os pequenos lábios beijando-me o centro enfurecido de minha paixão, que ia e vinha cada vez mais rápido, até explodirmos juntos num êxtase incomensurável, caindo ambos desfalecidos ao chão, ofegantes, saciados, exaustos e plenos.
Quando voltei a mim, percebi o quanto tudo parecia inverossímil: estarmos eu e a garota que por tanto tempo paquerei, Anne, seminus, sentados no chão, a porta do elevador aberta no quinto andar, e meu walkman ainda tocando alguns acordes de Vivaldi. Levantei rápido, apertei o botão para o último andar, rezando para que não houvesse ninguém nos corredores. Anne levantou-se, os seios maravilhosos balançando lentamente. Suspirei fundo e abracei-a uma vez mais. Ela sorriu. Aproveitamos para nos vestir, e fui presenteado com o mais terno e longo beijo que já recebi de uma mulher. Mas ela recusou-se a ir embora enquanto não lhe forneci meu endereço e telefone, o que prontamente lhe ofertei. A partir daí ela visitou-me várias vezes em meu pequeno e discreto apartamento.
E aquela havia sido apenas o início de outras tantas loucuras extasiantes que aquela mulher me proporcionara. E eu que passei a me sentir no topo, muitos sábados depois, ainda gostava de repetir com Anne as mesmas cenas do elevador.
14/01/2007
 
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