14:09
 
 
 
 
 
Como era de costume, o ônibus das 14:08 encostava no ponto da Av. Sete de Setembro e ela estava sempre atrasada. Porém, o motorista costumava esperar enquanto ela andava em passos largos em direção ao ônibus parado. Era fácil saber seu paradeiro, afinal, era tudo devidamente cronometrado para poder fazer todas as tarefas que lhe cabiam no dia. Ele, mais do que qualquer pessoa, sabia TODOS os passos que ela dava durante o dia e, à noite, aproveitava para ensaiar as poucas palavras doces que pretendia lhe dizer assim que se sentisse um pouco mais à vontade.
Ele não era o tipo de garoto tímido ou que tinha algum tipo de problema em se comunicar, mas, quando se tratava dela, as palavras sempre lhe fugiam e ele se sentia como um daqueles garotos que ficavam vermelhos quando precisavam falar qualquer coisa em público, daquele tipo que ele sempre zoou na escola. Era incontrolável, jamais havia sentido suas mãos suarem tão frio só em pensar em conversar com alguém. Certa vez, ela lhe perguntou as horas e ele, mesmo querendo responder algo como "são 14:06, hoje você não está atrasada... sabe, tenho te observado a algum tempo e queria muito que você aceitasse tomar um café comigo qualquer dia", ele engoliu seco, suou e soltou um "são 14:06" que rasparam na garganta ao sair. Ela, sempre simpática como ele já havia observado, respondeu um "obrigada" acompanhado de um sorriso. Mal ele conseguia acreditar que aquele sorriso que ele tanto via ser distribuído para vários estranhos tinha, finalmente, sido em sua direção. Aquele sorriso era mesmo de desconcertar qualquer um. E tinha sido esse o único contato do admirador e a admirada. E os motivos dele, não poderiam ser compreensíveis, afinal, aos olhos dos outros, que motivos são?
Em uma tarde de quinta-feira no mês de setembro, chovia muito e ele, pela primeira vez nos três meses que se dedicava a ela, se atrasou. Viu o ônibus passar, mas não tinha conseguido chegar ao ponto a tempo do rotineiro "14:08". Estava decepcionado, afinal, em todos aqueles meses de observação diária, não havia perdido nem uma vez sequer o ônibus da admirada. Sabia que seu dia não seria o mesmo sem encontrá-la durante aqueles 22 minutos de trajeto até o ponto onde ela descia para trabalhar.
_Você está atrasado.
Sentiu um gelo na espinha e percebeu que era aquele o momento que havia esperado esse tempo todo, e o motivo pelo qual ensaiava todas as noites.
25/07/2006
 
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Comentário dos leitores:

tenho q admitir q isso me lembrou mto g.g. marquez, heheheh engraçado isso.
Phill

eu ja tinha lido esse conto e tinha achado otimo, foi qdo descobri e vc era uma escritora....exceente escritora...
rena

bom.. muito bom... me faz pensar sobre as oportunidades de não ficar calados que perdemos...
Lívia

Muito bom^^ Me identifiquei com o personagem, me fez lembrar muita coisa que eu deixei passar em branco por pura besteira...
José

Adorei o conto... ainda mais por me chamar Mariana Porto... coincidência, não?
Mariana Porto

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