Numa tarde
 
 
 
 
 
Bebi o copo d’água disfarçando a tentação de rejeitar.
Ela passava a maior parte do tempo em casa. Eu sabia que não era muito chegada a lavar a mão, nem a banho, troca de roupa, mas enfim...
Peguei aquele pedaço de vidro baço e meti pra dentro aquela água de um fôlego só, sem pensar
 
sem pensar que ela passava a maior parte do tempo deitada e que quando estava deitada aquelas mãos já naturalmente oleosas teimavam em coçar tudo que era parte mais nojenta do seu corpo (tudo que é alheio ao nosso próprio é nojento) e tenho certeza que ela enfiava aquela ou aquelas mãozonas dentro do pijama e ficava horas com elas pousadas nos úmidos da bunda brincando e tenho quase certeza também que ela nem de longe devia pensar em depilar os pêlos que certamente deviam formar uma gigantesca mata totalmente impregnada de restos de merda e de xixi e de muco perpetrando um verdadeiro histórico escatológico catarrento na película que cobria aquele matagal, e é no meio desta mata de pêlo imundo e duro que ela devia ficar brincando horas pensando na vida ou em nada, e posso afirmar quase que com certeza que eventualmente aquelas mãos cansavam do pijama e iam coçar a cabeça banhada num óleo só bem na raiz dos cabelos, óleo de caspa que entrava naquelas unhas que por mais curtas que pudessem estar (recusei-me mesmo a presumir o tamanho pra evitar um possível vomitar ali mesmo) coçavam, coçavam aquele cabelo seboso, e que depois de coçar o cabelo iam passear por dentro do nariz com a unha do indicador pra tirar o ranho endurecido formado pelo respirar daquele ar todo e que depois aqueles indicador e polegar atiravam aquilo tudo no ar ou então premiam as bolinhas grudentas nos móveis mais próximos, isto Certamente! Tenho certeza que eventualmente aquelas mãozinhas também se enfiavam ouvido a dentro pra limpar a cera que brotava à sua superfície e posso afirmar que seu dedo mínimo, depois de tão catártica empreitada era limpado daquela película laranja sem a menor dúvida nas roupas dela, de cama, tapetes, cortinas, ou, ou, ou...
 
Aquele copo nojento tinha sido usado por ela antes: além das indisfarçáveis marcas velhas dos dedões sebosos que o decoravam na volta percebi duas ou três marcas bem mais baças que o resto do corpo dele em sua borda, marcas de boca
 
aquela boca que só pelo buraco de fora já exalava um hálito de presumida intimidade aviltante! tenho asco profundo de pensar de quantos dias não era a memória residual daquela dentalhama torta de tudo o que tinha mastigado. No meio daquela boca que me cuspia aquela respiração grossa e quente ainda aquela língua duríssima e asquerosamente recoberta com um sebo branco gorduroso de resto de tudo que tinha passado remota ou recentemente por ali.
Na borda do copo as duas marcas velhas de boca me lembravam que aquela nojeira toda já tinha estado pousada nele uma hora ou outra, soltando ali o visgo de comida velha e sabe-se lá mais o que que não andara por aquela boca suja que limpeza não via nunca, disto tenho certeza quase que absoluta.
Agradeci-lhe e fui-me embora não sem antes abraçar-lhe e fazer a menção de beijar-lhe o rosto coberto de óleo com o meu rosto coberto de vergonha.
 
22/03/2006
 
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Comentário dos leitores:

E pensar que pessoas sujas assim realmente existem...
fabiano

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